Trabalhadora doméstica começou a servir a família aos
7 anos, trabalhou para três gerações dos empregadores e tem mais de R$ 1,5
milhão em direitos trabalhistas estimados
Uma mulher de
62 anos, que trabalhou desde os sete anos para a mesma família, foi resgatada
de uma situação análoga à escravidão durante uma operação do Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE) em Fortaleza, no Ceará. De acordo com o órgão, ela
passou mais de cinco décadas sem remuneração regular, sem acesso à educação,
autonomia financeira ou possibilidade de construir patrimônio. Os créditos
trabalhistas devidos ultrapassam R$ 1,5 milhão.
Embora a
operação tenha ocorrido em junho, o caso só foi divulgado na semana passada. A
fiscalização aconteceu em uma residência localizada no condomínio de luxo
Terras Alphaville – Residencial 2, em Eusébio, na Região Metropolitana de
Fortaleza.
A identidade
da trabalhadora e dos empregadores foi preservada. Além do MTE, participaram da
ação o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Polícia Federal (PF) e a
Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará (CRDH/SEDIH-CE).
Exploração
começou na infância
A mulher
chegou à casa da família em 1971, aos 7 anos de idade. Ela foi levada junto com
a irmã e ambas passaram a desempenhar tarefas domésticas. Segundo os
empregadores, a irmã deixou o local ainda na adolescência após desentendimentos
com a família. A Auditoria-Fiscal do Trabalho não conseguiu localizá-la nem
confirmar sua idade.
Enquanto os
filhos da empregadora frequentavam a escola, as duas meninas permaneceram sem
acesso à educação. Após a morte da primeira patroa, a trabalhadora continuou
vinculada ao mesmo núcleo familiar. Conforme seu relato e o de familiares, ela
teria sido "dada" a uma das filhas da antiga empregadora.
Com isso,
acompanhou as mudanças da família ao longo das décadas. Em 1982, passou a morar
com a filha da antiga patroa, assumindo os serviços domésticos e os cuidados
com os três filhos do casal.
Décadas mais
tarde, foi transferida novamente para outra residência da mesma família, onde
passou a cuidar da geração seguinte. Segundo os auditores, ela trabalhou
continuamente para três gerações da mesma família, sem interrupção das
atividades.
Sem qualquer
fonte própria de renda, a mulher estava inscrita no Cadastro Único e recebia R$
600 mensais do Programa Bolsa Família. Entretanto, os saques eram feitos pela
empregadora, que depois lhe repassava o valor.
Jornada de
trabalho abusiva
No momento do
resgate, aos 62 anos, a trabalhadora era responsável pelos cuidados de duas
crianças, de 11 e 7 anos, além de preparar as refeições e realizar todas as
tarefas da casa. A rotina tinha início às 4h30, quando preparava o café da
manhã e organizava as crianças para a escola.
Durante o
restante do dia, limpava a residência, cozinhava, organizava os ambientes e
acompanhava os menores. Mesmo sendo hipertensa, continuava trabalhando durante
episódios frequentes de mal-estar relacionados ao estresse.
Na avaliação
da Auditoria-Fiscal do Trabalho, as condições encontradas configuravam uma
grave violação da dignidade humana. O relatório aponta que a mulher permaneceu
por mais de 50 anos submetida a uma relação marcada pela ausência de salário,
dependência econômica, privação de oportunidades educacionais e permanência
contínua no mesmo ambiente familiar desde a infância.
Direitos
trabalhistas superam 1 milhão
Os fiscais
estimam que a trabalhadora tenha direito a mais de R$ 1,5 milhão em créditos
trabalhistas, considerando salários não pagos, férias, 13º salário, FGTS,
verbas rescisórias e horas extras decorrentes da supressão dos descansos
semanais.
Após o início
da fiscalização, os empregadores reconheceram o vínculo empregatício apenas em
relação ao período iniciado em 21 de julho de 2014, correspondente à última
residência onde ela trabalhou.
Em seguida,
foi firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do
Trabalho. O acordo prevê a regularização das contribuições previdenciárias
referentes ao período reconhecido, o pagamento de R$ 50 mil em verbas
rescisórias, dividido em dez parcelas mensais de R$ 5 mil, a compra de um
imóvel em nome da trabalhadora no valor mínimo de R$ 150 mil, equipado com
móveis e eletrodomésticos essenciais, além do custeio das contribuições
previdenciárias até que ela consiga se aposentar.
Benefício
previdênciário
Também ficou
estabelecido que, caso ela complete 64 anos sem acesso ao benefício
previdenciário, receberá uma complementação financeira de até R$ 12 mil.
O TAC
ressalta, porém, que as medidas acordadas não representam a quitação integral
dos direitos da trabalhadora. Dessa forma, continua sendo possível a cobrança
judicial de créditos trabalhistas e de eventuais indenizações ainda não
satisfeitas.
Saiba como
denunciar
As violações
de direitos humanos podem ser denunciadas por diferentes plataformas: além das
ligações telefônicas do Disque 100, as vítimas podem realizar denúncias
pelo WhatsApp e Telegram.
Pessoas surdas ou com deficiência auditiva podem entrar em contato por videochamada em
Língua Brasileira de Sinais (Libras).
As denúncias
são encaminhadas aos órgãos de proteção e de apuração, como conselhos
estaduais, Centros de Referência Especializados de Assistência Social,
delegacias, Ministério Público, entre outros. O Ministério dos Direitos Humanos
faz o encaminhamento e o acompanhamento das denúncias após elas saírem da
central do Disque 100.
Fonte: https://www.cut.org.br
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